Tô com saudade de uma coisa que eu não sei o que é

Pensando bem, eu deveria me dedicar mais ao meu blog mesmo. Escrever me causa uma sensação de nostalgia tão gostosa, não importa sobre o que seja. Afinal, os anos passam tão depressa que quando você menos se dá conta… ele realmente passou, e se você não seguiu a linha de tudo aquilo que você almejava para um futuro tão próximo, sinto lhe dizer, mas os anos passam realmente de pressa, e um dia vai bater uma saudade de tudo aquilo que você viveu, sendo eles bons momentos – ou não – é tipo uma sensação estranha que você não vai saber do que exatamente você sente falta.

Por isso eu resolvi escrever um e-mail, no qual pretendo receber só daqui a dez anos. Independente do quão ridícula eu pareça ser. Aliás, se eu fosse parar pra pensar no que eu me tornei desde os meus 14 anos (á dez anos atrás) eu descreveria essa época da minha vida como mais ou menos. Prefiro muito mais meu hoje. Não que eu não tenha aproveitado, aliás, aproveitei sim, bastante. Mas nada como estar no auge dos meus vinte e poucos anos. É a idade do tudo ou nada, anos onde tudo de mais marcante vai acontecer na sua vida, e tudo vida vira um parque de diversões, muitas emoções já diria Roberto Carlos.

Eu era sapeca, magrela, boca de lata, vira lata, vara de cutucar estrela, trave de gol, era cada uma que inventavam que imaginem só me zuavam tanto (sim me zuavam muito) que diziam até que eu limpava os fios da TV que chegava na casa dos vizinhos por dentro. Não que eu fosse tão magrela assim, mas simplesmente porque imagino que todos queriam tanto chamar a atenção da “menina dos olhos” (era assim que a minha BBF me chamava a Camila Bassi, tenho tantas saudades dela). Eu chamaria isso nos dias atuais de bulling, mas como naquela época isso não era moda enfeitar apelidos com nomes estrangeiros, eu me conformava com essas conotações ridículas mesmo.

Não tem como lembrar da Camila sem lembrar do nosso primeiro porre. Nosso não, o meu primeiro porre de vinho que ela teve que cuidar de mim. Eu nadava no mar verde (grama do quintal da minha casa). Dizia que ia me jogar da janela do quarto pra quicar no toldo debaixo dele e voar no vizinho. Hahahahah, que babaca, nunca tive coragem.

Mas saudades mesmo eu sinto das cartas imensas que escrevia ás minhas BBF´s – best friend forever. Teve ate um natal que gastei todo meu dinheiro em cartões pra enviar a todas minhas amigas, sem exceções (eram muitas) um Feliz Natal diferenciado, vejam só e pelo correio. Hoje em dia nem se usa mais esse trem. Tinha amiga que eu só me comunicava por carta, como foi o caso da Camila, da Bia (que reencontrei agora depois de 6 anos separadas) e da Mari. As outras escapuliram no túnel do tempo pra nunca mais.

Que pena que saiu de moda. Era muito mais divertido desenhar nos papéis de carta, botar pingos diferentes nos I´s, desenhar as inimigas, as professoras e até mesmo nossos pais que insistiam em negar tantas coisas (xiiu segredo? Coisa de adolescente, a gente sempre quer mais do que pode, eu sei… agora eu entendo) colar adesivos, juntar fotos e tranqueiras tudo num envelope só e ter o trabalho de ir até o correio só porque me lembrei de você amiga, isso sim é amor de irmã. Sem contar as amigas do colégio que tinham sempre um bilhete na manga pra animar a aula. Dessa época me lembro da Amanda – Mandy, da Mayara, da Milena, da Marjorie, da Luciana, da Talita, da Hilana – que acaba de dar a luz á Larinha linda, da Car Carrrrrrr , da Camila irmã da Carr, da Rê, da Ninna, da Amanda Pipoka, dos meus amigos roqueiros: Alex,  Cassio e Rodrigo que me levavam cd´s ótimos que eu curto até hoje. (Que saudades!).

A modernidade facilita o acesso à vida alheia, mas também tira o brilho da esperança de receber uma resposta daquela carta linda que eu muito me esforcei pra chegar justamente no dia do seu aniversário. É tinha essa ainda, pra chegar no dia era preciso fazer as contas e rezar pro correio não atrasar.

E minhas primas. Essas foram e são presentes até hoje. A gente dividia tudo desde a escova de cabelo até as váaarias bonecas e brinquedos que a gente tinha. Não tinha essa de criança mimada que quer ter tudo só pra si. Era chegar uma data de ganhar presentes e a gente já se organizava pra pedir coisas diferentes pra ter de tudo um pouco. E quando inventamos de querer patins. Nossa, imagine um joelho que sofreu. O meu. Eu já era tudo aquilo que eu citei acima – vara de cutucar estrela, boca de lata, o cão chupando manga (brincadeira) – andar com o joelho estourado não era nada além do normal. E os furúnculos imensos que a minha pele insistia em adotar como seus e de mais ninguém? Pois é, atrás disso ainda vinha piolhos e lêndeas, mas isso eu deixo pro próximo post.

Só pra relembrar minha banda predileta desde esses tempos de menina, boca de lata que tem tudo a ver. Boa noite.


Entra quem quer, ou quem se atreve…

Hopi Hari

Uma das sensações mais intensas e pertubadoras que se pode experimentar, neste nosso mundo atual, é um passeio na montanha-russa. Só não é nem um pouco recomendável para quem tenha problemas com os nervos ou o coração, nem para aqueles com o sistema digestivo sensível. A própria decisão de entrar na brincadeira já requer alguma coragem, a gente sabe que a emoção pode ser forte até demais e que podem decorrer consequencias imprevisíveis. Entra quem quer ou quem se atreve, mas sabe-se também que muita gente entra forçada por amigos e pessoas queridas, meio que contra vontade, pressionada pela vergonha de manifestar sentimentos de prudência ou o puro medo. Mas, uma vez que se entra, que se aperta a trava de segurança e a geringonça se põe em movimento, a situação se torna irremediável. Bate um frio na barriga, o corpo endurece, as mãos cravam nas alças do banco, a respiração se torna cada vez mais difícil e forçada, o coração descompassa, um calor estranho arde no rosto,  nas orelhas, ondas de arrepio descem do pescoço pela espinha abaixo.

A primeira fase até que é tranquila, a coisa se põe a subir num ritmo controlado, seguro, previsível. A gente vai se acostumando, o corpo começa a distender, aos poucos está gostando, vai achando o máximo ver primeiro o parque, depois o bairro, depois a cidade toda de uma perspectiva superior, dominante, se estendendo ao infinito. Aquilo é ótimo, a gente se sente feliz como nunca, poderosa, sobrevoando olimpicamente a multidão de formiguinhas hiperativas se mexendo lá embaixo, presas em suas rotinas, ocupações e movimentos triviais. A subida continua sem parar, no mesmo ritmo consistente, assegurado, forte; descobrimos que o céu aberto é sem limites, bate uma euforia que nos faz rir descontroladamente, nunca havíamos imaginado como é fácil abraçar o mundo; estendemos os braços, estufamos o peito, esticamos o pescoço, fazemos bico com os lábios para beijar o céu e…

… e de repente o mundo desaba e leva a gente de cambulhada. É o terror mais total. Não se pode nem pensar em como fazer para sair dali porque o cérebro não reage mais. O pânico se incorpora a cada célula e extravasa por todos os poros da pele. Não é que não se consiga pensar, não se consegue sentir também. Nos transformamos numa massa energética em espasmo crítico, uma síndrome viva de vertigem e pavor, um torvelinho de torpor e crispação. É o caos, é o fim, é o nada. Até que chega o solavanco de uma nova subida, não mais precisa e reconfortante como a primeira, agora mais um tranco que atira a gente para diante e para trás, um safanão curto e grosso que ao menos dá a sensação de um baque de volta á realidade.

Tolo engano: novo mergulho fatal, desta vez oscilando para a direita e para esquerda, como se a gente fosse entrar em parafuso. O corpo se esmaga contra a barra de segurança, que a essa altura parece vergar como um galhinho verde e frágil, o mundo ao redor se precipita em avalanche contra nós, se vingando do olhar arrogante com que ainda há pouco havia sido menosprezado. Suor frio, completo descontrole sobre as secreções e os fluxos hormonais, lágrimas espontâneas, baba viscosa que começa a espumar nos cantos da boca, os olhos saltam das órbitas, todos os pêlos do corpo de pé, espetados como agulhas.

Mais um tranco seco e uma subida aos solavancos. Nem um instante e já mergulhamos no precipício outra vez. Agora o carro chacoalha para os lados e arremete em curvas impossíveis, é total a certeza de que aquilo vai voar dos trilhos, catapultando pelo espaço até se arrebentar longe dali. Outro baque de subida, nem o tempo de piscar e a queda livre que enche as vísceras de vácuo e faz o coração saltar pela boca. E agora, meu Deus, o loop…! Aaaaaaahhhhhhhh….!!!!!! Rodamos no vazio como um ioiô cósmico, um brinquedo fútil dos elementos, um grão de areia engolfado na potência geológica de um maremoto. Nada mais nos assusta. Ao chegar ao fim, desconfigurados, descompostos, estupefatos, já assimilamos a lição da montanha-russa: compreendemos o que significa estar exposto ás forças naturais e históricas agenciadas pelas tecnologias modernas. Aprendemos os riscos implicados tanto em se arrogar o controle dessas forças, quanto em deixar-se levar de modo apatetado e conformista por elas. O que não nos impede de suspeitar das intenções de quem inventou essa traquitana diabólica.

A corrida para o século XXI – No loop da montanha-russa ( Nicolau Sevcenko)

Carol Mendes